Além de braços e pernas, agora cientistas fazem ovários com impressão 3D

Confira a matéria com a participação do Dr. Maurício Chehin, médico coordenador de Oncofertilidade do Grupo Huntington, publicada no jornal O Globo em 17/05/2017.

Em estudo, órgão foi capaz de gerar filhotes saudáveis e é esperança futura para mulheres que não podem engravidar

A impressão 3D é cada vez mais uma opção para a produção de próteses sob medida de membros e tecidos simples. Já usada na fabricação de pernas e braços mecânicos, de partes da pélvis e articulações do fêmur, ossos da face e até pedaços da traqueia, entre outros, a tecnologia agora está sendo testada para a substituição de estruturas mais complexas, incluindo órgãos como rins, fígado e coração.

gel ovario

Num avanço importante, cientistas anunciaram ontem sucesso em um experimento que usou a impressão 3D para criar ovários artificiais para camundongos. Implantados em fêmeas dos animais, eles funcionaram como ovários naturais, estimulando a produção de hormônios e o amadurecimento de óvulos que deram origem a proles saudáveis. A expectativa é que, no futuro, um método semelhante ajude meninas submetidas a terapias contra o câncer possam ter um desenvolvimento sexual normal, assim como preservar e restaurar a fertilidade de mulheres mais velhas que também passem por estes tipos de tratamentos.

Esta pesquisa mostra que as biopróteses de ovários têm um funcionamento durável de longo prazo — comemora Teresa Woodruff, diretora do Instituto de Pesquisas para Saúde da Mulher da Universidade Northwestern, EUA, e líder do estudo, publicado na revista científica “Nature Communications”. — Usar a bioengenharia para criar estruturas e órgãos que funcionem e restaurem a saúde daquela pessoa específica, e não uma parte de um cadáver, é o Santo Graal da medicina regenerativa.

No caso dos ovários artificiais, o sucesso começou na escolha do material usado para imprimir as estruturas: uma espécie de hidrogel composto por 90% de água e uma gelatina que é nada mais que colágeno — e por isso bem tolerado pelo corpo e seguro para uso em humanos —, rígido o suficiente para ser manipulado em cirurgias de implante.

Ao mesmo tempo, este hidrogel pôde ser configurado numa geometria porosa o bastante para interagir com os tecidos dos animais. E foi justamente esta última propriedade outro fator fundamental para o experimento dar certo. Os cientistas puderam testar ângulos de 30, 60 e 90 graus entre os filamentos do órgão impresso para ver qual melhor se adequava à sobrevivência e ao desenvolvimento do tecido ovariano — folículos formados por células produtoras de hormônios que cercam os óvulos imaturos — retirado das fêmeas e que depois os cientistas usaram para “semear” os ovários artificiais.

A maioria dos hidrogéis é muito fraca, já que são feitos na maior parte de água e frequentemente colapsam sobre si mesmos — destaca Ramille Shah, professora de engenharia de materiais da universidade americana e outra integrante do grupo de pesquisadores. — Mas encontramos uma temperatura da gelatina que permite a ela se sustentar e não colapsar e favorece a construção de camadas múltiplas. Ninguém até agora tinha conseguido imprimir a gelatina em uma geometria tão bem definida e autossustentada. Assim, este é o primeiro estudo a demonstrar que a arquitetura da estrutura faz diferença para a sobrevivência dos folículos.

FUTUROS EXPERIMENTOS EM HUMANOS

Especialistas em reprodução humana consideraram os resultados do estudo excepcionais, embora destaquem que ainda há um longo caminho antes que a técnica seja usada em humanos. Mas, assim como os cientistas do experimento, eles estão otimistas quanto aos seus futuros desenvolvimentos.

No caso de humanos, é mais difícil que estes ovários artificiais funcionem porque a complexidade dos folículos é muito maior, por exemplo — lembra Maurício Chehin, coordenador do projeto de oncofertilidade da Huntington Medicina Reprodutiva, que estima que os experimentos em humanos podem começar em de cinco a sete anos. É uma perspectiva de fato muito boa.

Além de dar a meninas que se tratam de câncer a possibilidade de uma puberdade normal, espera-se que a técnica seja uma alternativa para mulheres que passam por terapias semelhantes e hoje se arriscam a reintroduzir a doença em seus corpos implantando diretamente tecidos ovarianos colhidos e preservados previamente ao tratamento, e que podem ter células cancerosas escondidas neles.

Poderemos separar só os folículos nestes tecidos, livres do risco de serem cancerosos, mas que sozinhos não conseguem crescer e amadurecer em óvulos, e dar a eles um lugar onde possam fazer isso, que são estes ovários artificiais — conta.