Mãe depois dos 40? Veja métodos para preservar a fertilidade

Texto publicado no portal Terra em 23/03/2015. Clique aqui e acesse a matéria no portal.

A idade é a maior vilã, já que uma mulher de 35 anos tem 80% mais chances de engravidar do que uma de 40 anos; hábitos saudáveis podem ajudar.

Carolina Ferraz, 46 anos, está grávida pela segunda vez. Sua primeira filha, Valentina, tem 20 anos, e a atriz confessou, sem esclarecer detalhes, que fez tratamento para engravidar novamente, após uma gestação que não deu certo. Aos sete meses de gravidez, Carolina é um dos exemplos de que adiar a maternidade, tendo ou não um filho anterior, faz parte da realidade da maioria das mulheres no mundo e no Brasil, por conta principalmente dos estudos, vida profissional atribulada e ausência de parceiro. A atriz, porém, é uma exceção, já que a tendência esbarra num fator biológico inexorável: a fertilidade diminui com o avanço da idade.

Melhor qualidade dos óvulos existe até por volta dos 35 anos. Após essa idade e, principalmente depois dos 40, há perda dessa qualidade, redução da taxa da fertilidade, aumento de malformações e taxa de perdas da gravidez (abortamentos no primeiro trimestre). Isso ocorre porque a mulher nasce com seus óvulos já produzidos durante a vida fetal. Portanto, eles também envelhecem ao longo dos anos. “Os melhores óvulos são os primeiros a serem perdidos: aos 25 anos, mais de 70% deles já foram descartados pelo corpo. Uma mulher de 35 anos tem 80% mais chances de engravidar do que uma de 40 anos. A partir daí, as possibilidades podem ser muito pequenas”, comentou Karla Zacharias, especialista em reprodução assistida do Grupo Huntington.

A infertilidade é considerada quando o casal está há pelo menos um ano tendo relações sexuais regulares sem qualquer método anticoncepcional.  Nesse caso, será realizada uma avaliação dos dois, que inclui perguntas sobre histórico de saúde, exame físico e exames complementares. A partir daí, dependendo da causa da infertilidade, será pensado no melhor procedimento a ser feito, que pode variar entre diversos tratamentos de indução de ovulação, passando por cirurgias para retirada de miomas, pólipos, endometriose e até reprodução assistida, como a fertilização in vitro.

Mas a gravidez tardia tem seus benefícios. Estudos vêm observando que a maioria das mulheres com mais de 45 ou 50 anos têm bons resultados quando conseguem engravidar e são capazes de lidar com tensões físicas e emocionais da gravidez e da maternidade. Com o uso de técnicas de reprodução assistida, já foram relatados gravidez de mulheres com de 66 anos e até com 70 anos.

Dicas 
Algumas ações simples podem ser importantes para a conservação dos óvulos das mulheres que querem esperar mais tempo para engravidar. Que fique claro: elas apenas ajudam, mas não impedem o envelhecimento ovariano. Mulheres lindas com ótimos hábitos de vida, imaginam estarem ‘protegidas’ e com ótima fertilidade mesmo após os 40 anos. É importante orientarmos as pessoas que hábitos de vida saudável são a peça-chave em múltiplas doenças, mas para a fertilidade a peça fundamental é a idade.

Confira dicas:

1 – Mantenha hábitos saudáveis, como alimentação balanceada (rica em vegetais e proteínas – frutas, verduras, legumes e grãos- e pobre em açúcares e gorduras) associada à atividade física regular, o que propicia um retardo no envelhecimento celular em geral, diminuindo a formação de radicais livres, que são os “vilões” quando se fala em desgaste da qualidade dos óvulos.

2 – Aposte em alimentos com ômega 3, que podem ajudar a fertilidade, como nozes, ervilha e peixes de água fria, como salmão e sardinha.

3 – Uma mulher acima do peso está sujeita a mais disfunções hormonais e ovulatórias. Quando consegue engravidar, a obesidade é prejudicial à gravidez. Portanto, faça as pazes com a balança.

4 – A pílula anticoncepcional tem baixo conteúdo hormonal e pode até contribuir com a fertilidade, ao prevenir a endometriose, por exemplo. Após um tempo de interrupção de uso, a chance de engravidar volta ao normal.

5 – Aposte em atividades que ajudam a gerenciar o estresse, como meditação e hobbies. É que o estresse pode alterar as taxas hormonais, que afetam as funções ovarianas, modificam os ciclos menstruais e, em quadros mais avançados, cessam a menstruação.

6 – É fundamental usar sempre preservativo e tomar a vacina contra o HPV. Assim, previne-se de doenças ginecológicas que possam causar infertilidade, como as sexualmente transmissíveis.

7 – Evite fumar, consumir bebidas alcoólicas em excesso, anabolizantes e outras drogas ilícitas, porque afetam a qualidade dos óvulos.

8 – Procure o ginecologista quando apresentar sangramentos anormais, dores durante o período menstrual ou fora dele e irregularidade menstrual. Aliás, as consultas periódicas podem ainda revelar desequilíbrios hormonais ou outras situações perigosas, que possam afetar a fertilidade.

Congelamento de óvulos pode custar até R$ 20 mil 
É fato, os óvulos envelhecem, mas a ciência consegue driblar o problema com as técnicas cada vez mais avançadas de congelamento, que acaba se constituindo numa real possibilidade de preservação da fertilidade. No passado recente, era uma aposta para pacientes em tratamento de câncer, que podem perder a reserva ovariana por conta de cirurgias ou quimioterapias. Hoje, além dessa indicação e devido aos avanços nos resultados, pode-se oferecê-lo para mulheres que estão inseridas no mercado de trabalho e que querem adiar a maternidade, bem como para as que ainda não conheceram seus pares e desejam ser mães no futuro.

Não é, porém, uma prática barata. O gasto com o congelamento pode variar de R$ 10 mil a R$ 20 mil, dependendo da idade e quantidade de remédios utilizados. A taxa de manutenção para preservação do material fica entre R$ 800 e R$ 1, 2 mil por ano. Quando a mulher tomar a decisão de engravidar, vai desembolsar em média, R$ 7 mil, que é o custo para a realização da fertilização in vitro.

Idade
Não existe um limite de idade para as interessadas em congelar os óvulos, porém uma limitação funcional. “Após os 40 anos, em média, as taxas de gravidez caem devido à diminuição da reserva ovariana e da qualidade dos óvulos. Sendo assim, ainda seria possível, porém cada caso deve ser avaliado em sua individualidade”, explicou a especialista em reprodução assistida Karla.

Os requisitos para o congelamento de óvulos são, segundo Karla, desejo da paciente (pois, em determinados casos, são necessárias diversas estimulações e coletas), avaliação prévia da reserva ovariana, não estar na menopausa e apresentar ausência de comorbidades que impeçam a estimulação ovariana naquele momento (uso concomitante de quimioterápicos, por exemplo, já que a estimulação e coleta devem ser realizadas antes da quimioterapia).

A indução da ovulação é iniciada no segundo ou terceiro dia do ciclo menstrual, com medicamentos específicos. A preparação dura de 10 a 12 dias. Nesse período, o acompanhamento ultrassonográfico é realizado em dias determinados, de acordo com a resposta ovariana aos medicamentos.

Quando os folículos (locais onde se desenvolvem os óvulos) estiverem apresentando sinais de maturidade, utiliza-se a última medicação para o amadurecimento final deles e, depois de dois dias, realiza-se o procedimento da coleta dos óvulos. “É realizado sob anestesia geral, guiado pelo ultrassom, aspirando o conteúdo de cada folículo e analisando as células obtidas no laboratório. No mesmo dia, os óvulos são submetidos ao processo de vitrificação, ficando congelados em nitrogênio líquido por tempo indeterminado”, completou Karla.

Dra. Karla Zacharias, médica especialista em reprodução assistida do Grupo Huntington.