Problemas ligados à infertilidade feminina podem dar sinais ainda na puberdade

Texto publicado nos portais Bolsa de Mulher e Jornal do Bonde (Londrina/PR) em 14/04/2015.

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Durante a gravidez, alguns distúrbios ocorridos na fase de formação dos órgãos (embriogênese) podem resultar em malformações do aparelho reprodutor feminino. Muitos desses problemas podem se manifestar logo após a chegada da primeira menstruação e durante a juventude da mulher, causando uma série de desconfortos.

“Algumas malformações podem ser sanadas com cirurgia ou amenizadas com outros procedimentos, mas as complicações à fertilidade são realidade em quase todas elas”, explica a médica Ana Paula Aquino, especialista em reprodução assistida do Grupo Huntington, em São Paulo. Veja quais são algumas das principais malformações genitais e anomalias do aparelho urogenital feminino que podem afetar a fertilidade:

Síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser (MRKH) – A genitália externa se apresenta em forma habitual, mas a vagina e o útero podem ser inexistentes ou conter apenas estruturas rudimentares. As tubas uterinas também podem ser afetadas, mas os ovários estão sempre presente com seu funcionamento normal. “A doença incide em uma a cada 4.000 mulheres. A suspeita costuma surgir com a ausência de menstruação e impossibilidade do ato sexual em garotas adolescentes, entre 14 e 18 anos”.

Reprodução

A patologia é causada pela ausência dos ductos que antecedem a formação dos órgãos genitais femininos no embrião (Ductos paramesonéfricos) ou dos Ductos de Müller. “O tratamento é para ter uma vida sexual normal. Ele é baseado na construção de uma neovagina, mas uma mulher com MRKH não consegue engravidar de forma natural. O único modo de ter um filho com a carga genética da mãe é por meio de Fertilização In Vitro, utilizando um útero de substituição”, explica a médica.

Hímen imperfurado – Membrana que fecha a saída vaginal, impossibilitando a menstruação. Pode apresentar-se na puberdade como um quadro agudo de acúmulo de sangue menstrual na vagina (hematocolpo) ou de sangue menstrual no útero (hematométrio), acompanhado de dor abdominal cíclica. Uma cirurgia de urgência para abertura do hímen e exteriorização do fluxo menstrual pode ser necessária.

Septo vaginal transverso – Falha de canalização vaginal, que pode variar em espessura e localizar-se em qualquer nível da vagina, sendo mais comuns na sua porção superior, próximo ao colo uterino. Os sintomas clássicos são a ausência de menstruação (amenorréia), dor cíclica na parte inferior do abdome e aumento gradativo de tumores em baixo ventre, em decorrência do acúmulo de sangue menstrual. O tratamento inclui a remoção do septo ou recanalização da vagina.

Septo vaginal longitudinal – Impede o coito ou promove intensa dor durante o ato sexual, apesar de permitir um fluxo menstrual normal. Um procedimento cirúrgico pode corrigir o problema.

Útero septado – É uma das anomalias mais comuns. Caracteriza-se pela presença de septo que divide a cavidade uterina em duas cavidades, mas com aspecto exterior de um útero único. É uma causa frequente de abortos de repetição, devido à vascularização reduzida no local do septo, dificultando a implantação e desenvolvimento da placenta. O tratamento se dá por um procedimento cirúrgico, chamado ressecção histeroscópica do septo.

Útero didelfo – Falha completa na fusão dos Ductos de Müller, causando a formação de dois úteros de proporções reduzidas (hemi-úteros), com dois colos uterinos e uma ou duas vaginas – que depende da presença ou não de outra anomalia, o septo vaginal longitudinal. Pode causar abortos, mas a colocação de pontos cirúrgicos pode fechar o colo do útero e impedir a perda fetal. Essa malformação tem o melhor prognóstico obstétrico. Normalmente não apresenta sintomas.

Útero bicorno – Malformação parcial que atinge a fusão dos Ductos de Müller. Geralmente compromete somente a porção da parte superior do útero, mas pode se estender até o colo do útero. Como no caso do útero didelfo, essa anomalia pode causar abortos, mas a colocação de pontos cirúrgicos pode fechar o colo do útero e impedir a perda fetal. Na maioria dos casos essa anomalia geralmente não precisa de tratamento. Também se desenvolve normalmente sem sintomas, sendo diagnosticada em exames de rotina ou em casos de infertilidade.

Útero unicorno – É resultado do desenvolvimento completo de apenas um Ducto de Müller, que pode apresentar-se sozinho ou com outra estrutura rudimentar do lado oposto, que pode se comunicar com o útero ou não. Essa anomalia possui a menor taxa de sobrevivência fetal por conta de sua forma anormal, volume reduzido, massa muscular insuficiente e incapacidade de expansão durante a gestação.

Fique atenta!

As anomalias podem ser divididas em dois grupos: aqueles que não apresentam exteriorização do fluxo menstrual e os que apresentam fluxo menstrual normal. A falta de menstruação no fim da puberdade costuma gerar a primeira desconfiança de alguma anormalidade e um exame de ressonância nuclear magnética costuma ser efetivo para o diagnóstico dos dois grupos de malformações.

“A vida sexual e a gravidez podem ser realidades mesmo para as mulheres diagnosticadas com alguma destas anomalias. É importante visitar periodicamente um ginecologista, especialmente na puberdade, para que, caso haja uma malformação, possa ser tratada sem causar grandes problemas”, completa Ana Paula.