KIR/HLA-C – novo exame para avaliar falha de implantação e aborto de repetição

Quando falamos de falha de implantação, sabemos que aproximadamente 70% da responsabilidade da implantação embrionária se deve à genética do embrião.  No entanto, nos outros 30% o problema se encontra na interação entre o embrião e o útero. Um novo teste surgiu para que possamos identificar aquelas mulheres que tem uma dificuldade de “reconhecer” o embrião, gerando uma reação imunológica mais intensa que pode prejudicar o desenvolvimento e a implantação embrionária. Esse teste avalia o sistema KIR/HLA-C (killer immunoglobulin-like receptor/ human leukocyte antigen) das células NK (natural killer), o qual parece ser essencial para esse processo.

Beginnings of lifeAntigamente acreditava-se que as células NK atuavam apenas prejudicando o desenvolvimento embrionário, mas atualmente sabe-se que a ação dessas células é mais complexa do que se imaginava. Observou-se que as células NK não são apenas inimigas no processo de implantação devendo estar em equilíbrio: sem excesso, mas também sem falta de atividade. Na verdade, existe mais de um tipo de célula NK com diferentes funções, sendo que uma parte delas libera substâncias imunomoduladoras que estimulam a invasão do embrião no endométrio de maneira adequada, sendo importante para garantir a implantação e formação adequada da placenta.

As células NK uterinas expressam um receptor chamado KIR. Esse receptor KIR promove a interação imunológica entre as células uterinas da mãe e uma molécula HLA-C de superfície do embrião, permitindo que a gestação ocorra normalmente. O KIR pode ser de 3 tipos (KIR AA, KIR AB e KIR BB), sendo que é é classicamente dividido em 2 categorias, ativadora e inibidora: KIR A (atividade inibidora) e KIR B (ativadora).

O sistema HLA-C é um conjunto de moléculas que correspondem à “assinatura genética” do indivíduo, e permite a interação com outros sistemas de outros seres como vírus, bactérias, tecidos transplantados, e no caso da gravidez, a comunicação do embrião com a mãe.  O HLA-C do embrião pode ser do tipo C1 e C2. A molécula C1 não causa reação importante em conjunto com a célula NK, já a C2 tem uma ação importante, podendo interferir no processo da gestação.

A scientist witch goggles and surgical mask looking at a molecular structureTudo depende da interação do receptor KIR da mãe com o HLA-C do embrião. Esse teste, recentemente desenvolvido, consegue por coleta de sangue definir os receptores KIR da mãe e o HLA-C do pai, o qual poderá ser expresso pelo embrião. Quando a mãe tem receptores KIR AA, gera resposta apenas inibitória, o que dificulta o processo de implantação e desenvolvimento embrionário. A combinação mais perigosa é quando a mãe é KIR AA e o embrião tem antígenos HLAC-2 do pai. Casos como esse tem maior risco de dificuldade de implantação, aborto de repetição, restrição do crescimento fetal, e pré-eclâmpsia. Além disso, quanto mais embriões são transferidos simultaneamente, maior a chance da molécula HLA-C2 ser expressa atrapalhando o desenvolvimento embrionário.

Nesses casos recomenda-se a transferência de apenas um embrião por vez, evitando assim aumentar a carga C2, e diminuir os riscos acima descritos.

O teste do sistema KIR/HLA-C ainda é novo necessitando de mais estudos para confirmar sua aplicabilidade. No entanto, é uma ferramenta a mais que pode auxiliar em casos de falhas de implantação e abortos de repetição.