“Quem tem câncer pode engravidar?”… Essa pergunta costuma carregar consigo um universo de emoções, medos e esperanças. Isso porque receber um diagnóstico oncológico já é um momento delicado, e a preocupação com o futuro e o sonho de construir uma família se tornam ainda mais presentes.
A boa notícia é que, com o avanço da medicina e um planejamento cuidadoso, a maternidade e a paternidade são, sim, possibilidades reais após o câncer. Para jovens e adultos, na faixa etária entre 15 e 39 anos, a preservação da fertilidade é vista como uma necessidade fundamental.
Portanto, o diálogo aberto entre a equipe oncológica e um especialista em reprodução humana é o primeiro e mais importante passo. Essa conversa deve acontecer, idealmente, antes mesmo do início do tratamento contra o câncer, pois as decisões tomadas nesse momento podem definir as chances de uma futura gestação.
É possível engravidar durante o tratamento oncológico?
A recomendação médica consensual é de que a gravidez não ocorra durante o tratamento oncológico ativo, seja ele quimioterapia, radioterapia ou outras terapias. Essa orientação visa proteger tanto a saúde da mãe quanto a do bebê.
Muitos dos medicamentos quimioterápicos e a radiação podem causar malformações no feto. Além disso, a gestação pode exigir a interrupção de tratamentos essenciais para a paciente, colocando sua própria saúde em risco. Portanto, a prioridade máxima durante essa fase é o combate à doença.
Como o câncer e seus tratamentos afetam a fertilidade?
O impacto do tratamento oncológico na fertilidade varia conforme o tipo de câncer, a idade do paciente, os medicamentos utilizados e a dose de radiação. Por isso, é fundamental entender como cada modalidade de tratamento pode influenciar a capacidade reprodutiva.
Impacto da quimioterapia
A quimioterapia age sobre células de divisão rápida, característica não só das células cancerígenas, mas também dos gametas (óvulos e espermatozoides).
Em mulheres, pode levar à redução da reserva ovariana ou à menopausa precoce. Nos homens, pode diminuir ou interromper a produção de espermatozoides.
Impacto da radioterapia
Quando a radioterapia é aplicada na região pélvica, pode afetar diretamente os órgãos reprodutivos. A radiação pode danificar os ovários ou os testículos, além de poder comprometer a saúde do útero, dificultando a implantação de um embrião ou a manutenção de uma gravidez no futuro.
Impacto de cirurgias oncológicas
Cirurgias para a remoção de tumores em órgãos reprodutivos, como ovários, útero ou testículos, podem impactar a fertilidade de forma direta e, em alguns casos, permanente. A extensão da cirurgia é um fator determinante para as possibilidades futuras.
E a fertilidade masculina, também é afetada?
Sim, a fertilidade masculina é igualmente vulnerável aos tratamentos oncológicos. A produção de espermatozoides pode ser severamente reduzida ou até mesmo cessar temporária ou permanentemente após a quimioterapia ou radioterapia na região pélvica.
Por esse motivo, é crucial que os homens também recebam aconselhamento sobre a preservação da fertilidade antes de iniciar o tratamento. A conscientização sobre esse impacto é fundamental para o planejamento familiar futuro.
O que é oncofertilidade e como ela pode ajudar?
A oncofertilidade é uma área da medicina que une a oncologia e a medicina reprodutiva. Seu principal objetivo é oferecer estratégias para preservar a fertilidade de pacientes com câncer antes que iniciem tratamentos que possam comprometer sua capacidade de ter filhos biológicos no futuro.
“Na maioria das vezes, existe um tempo hábil entre 12 e 14 dias antes do início da quimioterapia, que é o necessário para os procedimentos de congelamento de óvulos ou embriões, podendo ser feitos a qualquer momento do ciclo menstrual, ou seja, sem data específica para iniciar”, explica o Dr. Mauricio Chehin, especialista em reprodução assistida.
Essa abordagem multidisciplinar permite que o paciente e a equipe médica tomem decisões informadas, equilibrando o tratamento do câncer com o desejo de uma futura gravidez, oferecendo um caminho de esperança e planejamento.
Quais são as principais técnicas de preservação da fertilidade?
Graças aos avanços da reprodução assistida, existem diversas técnicas seguras e eficazes para preservar a fertilidade. Porém, a escolha do método ideal depende do tipo de câncer, do tempo disponível antes do tratamento e da idade do paciente.
Por exemplo, para mulheres jovens que enfrentaram o câncer de mama, a chance de uma gravidez natural pode ter uma diminuição média de 60 % em comparação com mulheres saudáveis, sublinhando a importância crítica do planejamento reprodutivo precoce.
Opções para mulheres
- Congelamento de óvulos (vitrificação): é a técnica mais comum e consiste em estimular os ovários para produzir mais óvulos, que são coletados e congelados para uso futuro em uma Fertilização In Vitro (FIV);
- Congelamento de embriões: para mulheres que já possuem um parceiro, os óvulos coletados podem ser fertilizados em laboratório, e os embriões formados são congelados para serem transferidos ao útero no momento oportuno;
- Congelamento de tecido ovariano: uma opção para meninas que ainda não atingiram a puberdade ou quando não há tempo para a estimulação ovariana. Um fragmento do ovário é removido cirurgicamente e congelado.
Opções para homens
- Congelamento de sêmen (criopreservação): é um procedimento simples e muito eficaz. O sêmen é coletado e as amostras são congeladas para uso posterior em técnicas de reprodução assistida;
- Congelamento de tecido testicular: indicado para meninos pré-púberes, que ainda não produzem espermatozoides. Um pequeno fragmento do testículo é retirado e congelado.
Quanto tempo depois do tratamento contra o câncer posso tentar engravidar?
Na verdade, o tempo de espera recomendado após o término do tratamento oncológico varia muito e deve ser uma decisão conjunta entre o oncologista e o especialista em reprodução humana.
Geralmente, os médicos recomendam aguardar um período que pode variar de seis meses a mais de dois anos. Essa janela permite que o corpo se recupere e diminui os riscos de uma recidiva do câncer durante a gestação. Em todo caso, a liberação para tentar engravidar é sempre individualizada.
Confira no vídeo abaixo como o congelamento de óvulos pode ser um caminho para a gravidez após o câncer.
O planejamento é o caminho para realizar o sonho da maternidade ou paternidade
Receber um diagnóstico de câncer não significa o fim do sonho de ter filhos. Por isso, a informação e a agilidade para buscar orientação são as ferramentas mais poderosas para quem enfrenta essa jornada.
Conversar abertamente com seu médico sobre seu desejo de ter filhos é um direito seu e um passo fundamental. Na Huntington, entendemos a delicadeza deste momento e estamos preparados para oferecer um atendimento humano, acolhedor e com a excelência técnica necessária para apresentar todos os caminhos possíveis.
Agende uma conversa com nossos especialistas em oncofertilidade. Juntos, podemos planejar os próximos passos para que você possa, no futuro, transformar seu sonho em vida!
REFERÊNCIAS
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