O aborto de repetição é uma experiência emocionalmente desafiadora para casais que sonham em construir uma família. Sabemos que cada perda gestacional deixa marcas profundas, e a busca por respostas se torna uma prioridade. Por isso, entender o que está acontecendo é o primeiro passo para encontrar um caminho de esperança e cuidado.
Neste artigo, trouxemos informações sobre as possíveis causas, os exames necessários para a investigação e os tratamentos disponíveis.
Quando uma perda gestacional é considerada aborto de repetição?
Segundo as diretrizes médicas, como as da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o quadro de aborto de repetição, ou abortamento recorrente, é caracterizado pela ocorrência de duas ou mais perdas gestacionais consecutivas antes da 20ª semana de gravidez.
É importante destacar que um aborto espontâneo isolado é relativamente comum, afetando cerca de 15% a 20% das gestações. No entanto, quando as perdas se tornam recorrentes, uma investigação médica detalhada é fundamental para identificar as causas e planejar os próximos passos.
Quais são as principais causas do aborto de repetição?
As causas para o aborto de repetição são diversas e, em muitos casos, multifatoriais. Por isso, a investigação cuidadosa por um especialista é essencial para um diagnóstico preciso. Abaixo, listamos os fatores mais comuns associados a essa condição.
Fatores genéticos e cromossômicos
As alterações genéticas são a causa mais frequente de abortos de repetição, especialmente no primeiro trimestre. Geralmente, elas estão relacionadas a anomalias no número de cromossomos do embrião, uma condição conhecida como aneuploidia, que pode inviabilizar seu desenvolvimento.
Essas alterações podem ocorrer de forma espontânea durante a formação do embrião ou, em casos mais raros, serem herdadas de alterações cromossômicas presentes nos pais, mesmo que eles não apresentem nenhum sintoma.
Além das alterações cromossômicas já conhecidas, o estudo das causas genéticas no aborto de repetição aprofunda-se na compreensão de como genes específicos, como PTEN e TP53, e a regulação hormonal afetam a funcionalidade das células ovarianas. Entender esses mecanismos é fundamental para desvendar fatores que podem impactar a saúde reprodutiva.
Fatores anatômicos uterinos
A estrutura do útero é fundamental para a implantação e o desenvolvimento do embrião. Sendo assim, alterações na cavidade uterina podem dificultar a continuidade da gravidez. As principais são:
- Malformações congênitas: como útero septado, bicorno ou didelfo, que alteram o formato interno do órgão;
- Miomas e pólipos: nódulos benignos que, dependendo da sua localização e tamanho, podem distorcer a cavidade uterina;
- Sinéquias: aderências ou cicatrizes na parede do útero, geralmente decorrentes de cirurgias ou infecções anteriores.
A saúde uterina também sofre influência da drenagem correta de secreções. Então, obstruções anatômicas podem levar ao acúmulo de infecções graves, como a piometra, uma complicação que pode exigir tratamento com antibióticos e, muitas vezes, cirurgia, e que pode impactar a capacidade do útero de sustentar uma gravidez.
Fatores hormonais e metabólicos
O equilíbrio hormonal é essencial para manter uma gestação saudável. Portanto, desordens endócrinas não controladas podem aumentar o risco de perdas gestacionais. Entre as mais comuns estão:
- Doenças da tireoide: tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo não tratados;
- Diabetes mellitus: níveis de glicose descontrolados podem afetar o desenvolvimento embrionário;
- Insuficiência de corpo lúteo: uma produção inadequada de progesterona, hormônio vital para a manutenção da gravidez inicial.
Fatores imunológicos e trombofilias
O sistema imunológico da mulher precisa se adaptar para aceitar o embrião, que possui material genético paterno. Em alguns casos, essa adaptação não ocorre corretamente, levando a uma rejeição.
Além disso, as trombofilias, que são condições que aumentam a propensão à formação de coágulos sanguíneos, podem obstruir os pequenos vasos da placenta, comprometendo a nutrição e oxigenação do feto e causando o aborto.
Outros fatores, como infecções, também merecem atenção na investigação do aborto de repetição. O Citomegalovírus (CMV), por exemplo, é um agente infeccioso comum que pode persistir no corpo e deve ser investigado como uma possível causa de perdas gestacionais repetidas.
Como é feita a investigação para o aborto de repetição?
A investigação é um processo detalhado e individualizado, conduzido por um especialista em reprodução humana. O objetivo é analisar o histórico do casal e realizar exames para identificar possíveis causas.
De modo geral, os principais exames solicitados podem incluir:
- Cariótipo do casal: análise do sangue dos pais para identificar possíveis alterações cromossômicas estruturais;
- Exames de imagem do útero: ultrassonografia transvaginal, histerossalpingografia ou histeroscopia para avaliar a anatomia da cavidade uterina;
- Dosagens hormonais: verificação dos níveis de hormônios tireoidianos, prolactina, progesterona e controle glicêmico;
- Pesquisa de trombofilias: exames de sangue para identificar fatores que aumentam o risco de coagulação;
- Análise genética do produto do aborto: quando possível, analisar o material genético da perda gestacional pode confirmar se a causa foi uma alteração cromossômica.
Quais tratamentos estão disponíveis?
O tratamento para o aborto de repetição é direcionado para a causa identificada. Por exemplo, se uma alteração anatômica no útero for diagnosticada, uma cirurgia corretiva pode ser indicada.
Para desordens hormonais, o controle da condição com medicamentos é o caminho. No caso de trombofilias, o uso de medicamentos anticoagulantes pode ser necessário durante a gestação.
Contudo, é fundamental que cada caso seja avaliado individualmente por uma equipe médica especializada para definir a melhor estratégia terapêutica.
Como a reprodução assistida pode ajudar em casos de aborto de repetição?
Para casos em que a causa principal são as alterações cromossômicas, a Fertilização In Vitro (FIV) com o Teste Genético Pré-implantacional para Aneuploidias (PGT-A) representa um avanço significativo.
Essa tecnologia permite analisar geneticamente os embriões antes de serem transferidos para o útero. Dessa forma, é possível selecionar apenas os embriões cromossomicamente normais, aumentando consideravelmente as chances de uma gravidez bem-sucedida e reduzindo o risco de um novo aborto.
Independentemente da causa, o mais importante é buscar apoio especializado para obter um diagnóstico preciso e um plano de tratamento acolhedor e personalizado. Cada passo dado com orientação médica é um passo em direção à realização do seu sonho.
Na Huntington, estamos comprometidos em oferecer um atendimento humano e baseado em excelência científica para ajudar você a construir sua família. Agende uma consulta com nossos especialistas para receber o acolhimento que você merece!
REFERÊNCIAS
CHEN, W. et al. EPI-SauriCas9-based mouse ovarian cancer models recapitulating pten deletion in patients. Communications Biology, 29 dez. 2025. DOI: https://doi.org/10.1038/s42003-025-09437-2.
LANZIERI, T. M. et al. Cytomegalovirus urinary excretion in children with congenital and postnatally acquired infection. Journal of clinical virology : the official publication of the Pan American Society for Clinical Virology, [s. l.], dez. 2024. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jcv.2024.105756.
SAAD, E. C. et al. Pyometra—An atypical complication following LeFort colpocleisis: narrative review. International Urogynecology Journal, [S.l.], set. 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s00192-025-06335-3.
