Procura por congelamento de óvulos quase dobra em clínicas da capital

Matéria publicada na Revista Veja São Paulo em 15/08/2015. Clique aqui e acesse a matéria na íntegra no site da revista.

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A gerente de produtos Luana Inocentes: oito tubos com o nome dos futuros filhos (Foto: Mario Rodrigues/Veja São Paulo)

Na infância, a gerente de produtos Luana Burkhart Inocentes costumava dar nome a suas bonecas preferidas, e o faz de conta da brincadeira ajudou a embalar desde cedo o desejo da maternidade. A vida profissional, porém, acabou adiando o plano. No auge da fertilidade, por volta dos 25 anos, sua prioridade era a carreira, em plena ascensão. Casou-se aos 31 e decidiu esperar mais um pouco.

Quando começou a chegar perto da idade-limite para realizar o sonho, o relacionamento já estava no fim. Aos 37 anos e divorciada desde maio, ela não desistiu do projeto: investiu 16 000 reais no congelamento de oito óvulos na  tentativa de esticar o prazo para ser mãe. Dessa forma, pode aumentar as chances de vir a ter filhos por meio da fertilização in vitro. Luana batizou cada um dos óvulos com um nome. Assim, Marianna, Joaquim, Guilhermina, Lucas, Isabella, Vitória, Maria Alice e Lorenzo estão estocados em uma clínica da capital para ser usados no futuro. “É como se eu tivesse parado os ponteiros do relógio biológico”, diz a gerente.

Casos assim são cada vez mais comuns nos endereços especializados na técnica na capital. Nos últimos dois anos, o número de pacientes que recorreram aos consultórios para guardar seus óvulos praticamente dobrou. Somente em 2014, 834 pessoas realizaram o procedimento nas treze principais clínicas do tipo na metrópole. O aumento é de 80% em relação a 2013. Em alguns locais, no entanto, a procura foi maior.

Na primeira fase do tratamento, a mulher recebe injeções de hormônios por até quinze dias para estimular o crescimento e o amadurecimento dos folículos, que dão origem aos óvulos

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A ideia é driblar o natural envelhecimento dos gametas. Após os 35 anos de idade, a quantidade e a qualidade dos óvulos caem exponencialmente, o que derruba a capacidade reprodutiva feminina. Aos 45, a chance de a mulher engravidar naturalmente é de 1% ao mês. Alterações cromossômicas, responsáveis por síndromes genéticas como a de Down, também se tornam mais comuns. Ao serem armazenados a baixas temperaturas, os óvulos mantêm as características da idade em que foram conservados.

Antes um recurso indicado apenas a pacientes com câncer, sob o risco de perderem a capacidade de gerar filhos, a preservação da fertilidade passou a ser uma opção cada vez mais comum para as paulistanas acima dos 30 anos, geralmente no auge profissional e sem parceiro estável. Nas clínicas, as chamadas justificativas sociais já correspondem a 90% dos casos.

 O congelamento de óvulos se tornou possível em 1986, mas não foi muito popular durante duas décadas por causa da baixa taxa de sucesso, em torno de 1%. O processo era realizado  lentamente, durava pelo menos uma hora e levava à formação de cristais, que danificavam a célula.

Nos últimos tempos, no entanto, o método evoluiu. A partir de 2005, passou a ser utilizada a vitrificação, espécie de esfriamento rápido, em no máximo cinco minutos, que mantém as células intactas e aumenta a taxa de aproveitamento para mais de 90%. A técnica ganhou o aval das sociedades americana e europeia de medicina reprodutiva há três anos.

Em outubro de 2014, a notícia de que o Facebook e a Apple pagavam para que suas funcionárias americanas congelassem óvulos ajudou a trazer mais visibilidade à prática. Nos consultórios, ginecologistas passaram a lembrar suas pacientes de que, embora o processo de fertilização in vitro tenha avançado, não há como evitar o envelhecimento dos gametas no corpo humano.

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A economista Rina Cunha, de 37 anos: menos pressão para engravidar (Foto: Mario Rodrigues/Veja São Paulo)

Durante uma consulta de rotina, a economista Rina Cunha, de 37 anos, foi alertada para o fato de seu prazo estar chegando ao limite. Solteira, recolheu dezesseis óvulos há três meses. “Isso ajuda a diminuir a pressão emocional de ver o tempo escapando”, entende. Mesmo quem está em um relacionamento estável tem buscado o procedimento. “Pretendo tentar a gravidez naturalmente daqui a três anos, mas o congelamento é como um seguro”, afirma a estilista Verusca Brito, de 34 anos, que está namorando há dois anos e meio.

O negócio não representa 100% de garantia, pois depende do sucesso da fertilização in vitro. Além disso, o valor da “apólice” é alto. A coleta da célula e o processo de vitrificação saem por um preço entre 7 000 e 15 000 reais.  As injeções de hormônios, necessárias durante o tratamento, podem custar até 8 000 reais. Também é preciso pagar um “aluguel” para manter os óvulos armazenados nos laboratórios, com taxa que varia de 700 a 1 000 reais por ano. Fora o procedimento da fertilização in vitro (8 000 a 12 000 reais por tentativa) quando decidir fazer o descongelamento.

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A estilista Verusca Brito: “apólice” para engravidar (Foto: Fernando Moraes/Veja São Paulo)

De acordo com as características da paciente, o gasto total pode ser ainda maior. “É caro, mas não quero terminar a vida sem filho”, admite a estudante de direito Carolina Junqueira, de 37 anos, que desembolsou 35 000 reais após realizar duas coletas e preservar vinte óvulos (especialistas recomendam guardar no mínimo quinze para aumentar a chance de fecundação).

Quem chegou ao fim do processo garante que o custo compensa. Em 2007, aos 36 anos e casada, a gerente de projeto Érika Ikeda não pretendia ter filhos. Optou pelo congelamento de dezesseis células e, três anos depois, usou parte da leva para engravidar dos gêmeos Erick e Danilo, hoje com 5 anos. “Tenho mais oito armazenadas, mas não sei ao certo se vou utilizá-las”, afirma.

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A gerente de projeto Erika Ikeda e os gêmeos Erick e Danilo: frutos de células vitrificadas(Foto: Fernando Moraes/Veja São Paulo)

 Se há uma “idade ideal” para engravidar — o auge da fertilidade feminina é em torno dos 25 anos —, o mesmo ocorre com o congelamento, que funciona melhor quando é feito antes dos 38. O útero não perde a capacidade de gerar até a menopausa, por volta dos 50, quando há a interrupção dos ciclos menstruais. “O grande limitador é a idade do óvulo, que interfere na qualidade do embrião”, explica a médica Claudia Gomes Padilla, da Huntington Medicina Reprodutiva.

Uma pesquisa recente com 112 mulheres de sua clínica apontou que a fertilização com óvulos congelados e “frescos” tem o mesmo índice de sucesso: para uma mulher de 35 anos, ele gira em torno de 50%. Por mais que os  prognósticos sejam positivos, ainda há incógnitas. Uma delas diz respeito ao limite de tempo de armazenamento do material. Apesar de a tecnologia ser bem-vinda, os especialistas também sugerem que é sempre melhor respeitar a natureza.

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O embriologista José Roberto Alegretti, diretor do Fairfax Cryobank: facilidade para importar sêmem de americanos (Foto: Mario Rodrigues/Veja São Paulo)

 A popularização do congelamento de óvulos está sendo comparada, com certo exagero, ao advento do anticoncepcional, que incendiou a revolução sexual nos anos 60. “A pílula ajudou a mulher a escolher se queria engravidar ou não”, opina Claudia Gomes Padilla. “Agora ela pode decidir quando se reproduzir.”

 Essa liberdade inclui até a possibilidade de uma produção independente. Além de preservarem suas células reprodutoras, algumas mulheres estão recorrendo a bancos de sêmen para realizar o sonho da maternidade. “Estou preparada para dizer a meu filho que ele é fruto do amor só da mãe”, diz a engenheira Charlana Rodrigues, de 38 anos, que tem sete células vitrificadas e estuda usar um serviço especializado.

 Em São Paulo, existem duas empresas  que fornecem material genético masculino, por até 3 500 reais. Cerca de 25% das compradoras são solteiras. Criado em 2007, o ProSeed trabalha apenas com esperma de brasileiros. Conta com 130 doadores cadastrados, em cuja ficha há informações desde o tipo sanguíneo até a religião.

Já o Fairfax Cryobank, aberto há um ano, facilitou a importação de sêmen de americanos. Hoje ocorrem por volta de quinze compras ao mês. Em seu site, a empresa oferece busca mais refinada, como por signo e animal preferido. Mediante um pagamento extra de 500 reais, é possível ver a foto do doador quando era criança. “Apesar de todo o avanço da tecnologia e da medicina, as expectativas e os sonhos continuam os mesmos: as mulheres ainda estão em busca do homem perfeito”, afirma a psicanalista Marina Massi.